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E a Assembleia! Como foi?

Tivemos uma manhã muito especial, com participação, boas conversas e importantes assuntos e temas tratados. Assim, encerramos o ciclo de uma gestão que teve início em 2023, com a sensação de dever cumprido e, principalmente, de gratidão por tudo o que construímos juntos.

Agradeço de coração a todos que puderam estar conosco no sábado pela manhã e, de maneira muito especial, a Adriana Montheiro, Marialba Gomes, Renata Gava, Daniela Carvalho, Eduardo Cremonese, José Silveira e Jorge Close, pela dedicação, pelo compromisso e pela contribuição em suas respectivas diretorias.

E sejam muito bem-vindos os novos integrantes empossados: Ana Laura Rodovalho, Maku Almeida, Ana Paula Saad, Carolina Schmitz, Silvio Cabal, Tânia Alves e Eduardo Cremonese.

Que possamos, juntos, dar continuidade ao excelente trabalho que vem sendo desenvolvido pela nossa Associação, preservando o que construímos e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para novas ideias, novos projetos e melhorias que possam fortalecer cada vez mais a nossa UNAT Brasil.


Seguimos juntos, com entusiasmo, parceria e compromisso com a Análise Transacional.

Um novo ciclo começa — e será muito bom construí-lo com vocês!


Ivana Zanini

Presidente da UNAT Brasil

Gestão 2026–2029

 
 

Novas Certificações

Após uma jornada extensa, feita de estudos dedicados, experiências vividas, diálogos que abrem horizontes e reflexões que reorganizam o olhar, o aluno de Análise Transacional chega ao portal da certificação. É um momento liminar: atravessar esse portal significa colocar à luz o resultado de um percurso interno e externo, oferecendo seu trabalho ao olhar criterioso e acolhedor de analistas transacionais que avaliarão sua prontidão para o exercício profissional.

No primeiro nível de certificação, a pessoa recebe a chancela para atuar como analista transacional. É o reconhecimento de que ela domina conceitos, compreende processos e está preparada para sustentar intervenções éticas e responsáveis. Mas esse marco, embora significativo, não encerra a caminhada.

Há uma etapa posterior, longa na linha do tempo e profunda na exigência de maturidade. Nela, o analista transacional passa a atuar como facilitador da formação, orientação e supervisão de outros analistas. É o caminho que prepara o profissional para se tornar didata, alguém que não apenas pratica, mas transmite, sustenta e amplia o campo da Análise Transacional. Essa fase também culmina na apresentação de conceitos, práticas e fundamentações a um grupo de analistas experientes, que avaliam não apenas o conhecimento, mas a postura, a ética e a consistência do candidato.

Nas duas etapas, que para mim se multiplicaram em quatro, já que trilhei caminhos em duas áreas distintas, a oqueidade dos examinadores é essencial. É ela que permite que o processo se afaste da lógica da avaliação tradicional e se aproxime da análise de prontidão: um olhar que busca maturidade, clareza, responsabilidade e autenticidade.

Hoje, ocupo o honrado lugar de análise. E é desse lugar que assisto, com alegria profunda, às apresentações dos resultados de jornadas potentes, corajosas e transformadoras. Nestes últimos dias, fui testemunha comovida de trabalhos consistentes, profundos e belamente construídos por alunos e supervisores. Sinto um orgulho imenso de pertencer a esta comunidade, onde o aprendizado colaborativo substitui o julgamento de valor e onde cada pessoa é convidada a crescer com dignidade, respeito e potência.

Maku de Almeida
Diretora de Docência e Certificação
Gestão 2026 - 2029

 

Agradecimento aos Examinadores e Examinandos — Certificação 2026

Carta Aberta à Comunidade de Análise Transacional

Caríssimos(as),

Terminada mais uma etapa de nossa Certificação, sinto-me movido a registrar, publicamente, o meu reconhecimento a cada um de vocês. Mais uma vez, pedi muito de vocês: dias inteiros de sexta-feira, sábado e domingo.

Dias em que poderiam estar descansando, com suas famílias ou dedicando-se ao que mais amam. E, mesmo assim, responderam com a generosidade que sempre os caracteriza.

O que vi durante essas jornadas me emocionou. Não foi apenas competência técnica — isso, aliás, sempre esteve presente. Foi o cuidado com cada examinando, a paciência diante do nervosismo, a sensibilidade de conduzir cada prova como um encontro humano, e não como um mero ritual de avaliação. Vocês transformaram um momento de tensão em experiência de crescimento. É assim que a Análise Transacional se revela em atos, e não apenas em palavras.

Celebro, com enorme alegria, os nossos novos Membros Certificados nas áreas de Psicoterapia e Organizacional. A cada um deles, meus parabéns: anos de estudo, supervisões, prática clínica e organizacional, e uma entrega que merece todo o nosso respeito. O fechamento deste ciclo abre caminho para que levem, agora, os conceitos da AT a ainda mais pessoas e organizações.

Meu reconhecimento especial aos Orientadores, que caminharam lado a lado com esses candidatos durante toda a formação. A paciência de vocês, a generosidade com que dividiram conhecimento e a firmeza com que seguraram as mãos nos momentos de dúvida foram determinantes para que chegássemos até este dia. Vocês são a espinha dorsal da nossa formação. E às nossas novas Didatas, meu apreço e minha admiração.

Aceitar esse novo degrau é um gesto de coragem e de amor à nossa comunidade — vocês assumem a responsabilidade de formar os analistas do amanhã, e a UNAT só tem a ganhar com isso. Este texto carrega também um significado especial para mim: é a última carta que assino como Diretor de Docência e Certificação da UNAT-Brasil.

Encerro, com o coração cheio, uma gestão que foi construída ao lado de vocês — de cada banca, cada orientador, cada candidato e cada conquista. Foram anos de aprendizado, de desafios superados e de muitas alegrias compartilhadas.

Levo comigo a certeza de ter dado o meu melhor por esta comunidade que tanto amo. A partir de agora, passo a bastão para a querida amiga MD Maku Almeida, que assume a Diretoria de Docência e Certificação. Conheço sua competência, sua sensibilidade e seu profundo compromisso com a Análise Transacional. Tenho plena convicção de que a gestão dela será brilhante — e peço a cada um de vocês que a acolha com o mesmo carinho, a mesma lealdade e a mesma entrega com que sempre me acolheram. Maku, bons fluidos! Conte comigo sempre, agora como parceiro e colega de jornada.

Como analista transacional e como pessoa, digo com convicção: é uma honra caminhar ao lado de pessoas como vocês. Obrigado pela dedicação, pelo carinho e pelo exemplo.

Muito obrigado por fazerem a diferença! Com o mais sincero respeito, admiração e gratidão,

José Silveira Passos – Diretor de Docência e Certificação (gestão encerrada em setembro de 2026) UNAT-Brasil — União Nacional de Analistas Transacionais

 

ENTRE O QUE VIVEMOS E O QUE DEIXAMOS

Chegou o momento de encerrar um ciclo.

E, quando olho para esses anos à frente da Diretoria de Comunicação da UNAT, percebo que não consigo falar deles apenas como um conjunto de projetos, publicações ou resultados.

Porque comunicação, para mim, sempre foi mais do que divulgar.

Foi criar pontes.

Aproximar pessoas Dar voz. Fazer circular ideias e histórias.

E professo uma gratidão enorme para as pessoas que participaram desta jornada comigo:

Anna Laura Rodovalho, Aymée Fávaro, Leilane Nascimento, e nossa especialista em Marketing Digital, Anna Gabriela Fonseca.

O QUE CONSTRUÍMOS

Ao longo dessa caminhada, buscamos renovar e ampliar a comunicação da UNAT.

Fortalecemos nossa presença nas redes sociais, ampliamos o alcance e o engajamento e criamos novos espaços de diálogo.

Renovamos a revista, criamos novas editorias, como o ATFlix e as Reflexões Transacionais, e abrimos espaço para que mais associados compartilhassem seus trabalhos, suas ideias e suas experiências.

Criamos também, junto à Diretoria de Ética e sua Comissão, o Cantinho da Ética, entendendo que comunicar também é promover reflexão e cuidado.

Foram muitas ideias, muitas mãos e muitos caminhos.

E cada Congresso, cada Fórum, cada encontro foi também uma oportunidade de aproximar nossa comunidade.

QUEM CAMINHOU CONOSCO

Mas, se existe algo que esses anos me ensinaram, é que nenhuma comunicação acontece sozinha.

Por trás de cada publicação, cada revista, cada projeto e cada evento existem pessoas.

Pessoas que colaboraram, sugeriram, questionaram, criaram, ajudaram e acreditaram.

Estivemos muitas vezes tudo junto e misturado — Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro — diferentes lugares e diferentes histórias reunidos por aquilo que temos em comum.

E não posso falar dessa caminhada sem lembrar do nosso saudoso presidente, Jefferson Moraes, cuja presença marcou essa trajetória e cuja ausência sentimos profundamente.

Algumas pessoas passam por nossas vidas. E deixam marcas intensas.

E algumas continuam presentes naquilo que construímos juntos.

O QUE DEIXAMOS

Hoje, ao me despedir da Diretoria de Comunicação, levo comigo, acima de tudo, gratidão.

Gratidão pela confiança. Da nossa Presidente Ivana Zanini.

Pelas parcerias com as outras diretorias e suas comissões

Pelos encontros com os colegas da UNAT.

Por tudo aquilo que aprendemos e construímos juntos.

Saimos do cargo, mas não da história.

Porque uma gestão termina, mas aquilo que foi construído permanece — nas relações, nas ideias, nos caminhos que foram abertos.

E talvez esse seja o verdadeiro sentido de encerrar um ciclo:

não levar tudo conosco, mas deixar algo que possa continuar depois de nós.

A comunicação continua.

A UNAT continua.

Nossa comunidade continua.

E eu sigo levando comigo as pessoas, os aprendizados e as histórias que fizeram parte dessa caminhada.

Obrigada por terem caminhado comigo.

Foi uma honra comunicar, aproximar, construir e, sobretudo, pertencer.

Que venham os próximos caminhos.

Até os próximos encontros.

Adriana Montheiro
Diretora de Comunicação
Gestão 2023-2026

 

BOAS-VINDAS A NOVA DIRETORA DE COMUNICAÇÃO

É com muita alegria e gratidão que inicio este novo ciclo como Diretora de Comunicação da UNAT-Brasil.

Agradeço a cada associado que confiou em nosso trabalho e nos escolheu para fazer parte desta nova gestão. Recebo essa confiança com muito carinho e, principalmente, com o compromisso de estar próxima e de manter as portas abertas para o diálogo.

Quero que a Comunicação da UNAT-Brasil seja, cada vez mais, uma ponte: entre a instituição e seus associados, entre a Análise Transacional no Brasil e no mundo, e também entre a UNAT e aqueles que ainda desejam conhecê-la.

Que possamos compartilhar informações relevantes, dar visibilidade ao que acontece dentro da instituição e na comunidade de AT, aproximar pessoas, fazer circular conhecimento, oportunidades, encontros e abrir espaço para que aquilo que fazemos, construímos e aprendemos juntos possa chegar mais longe.

Mais do que comunicar, espero que possamos criar conexão, facilitar encontros e fazer circular aquilo que que torna nossa associação viva: conhecimento, troca, cuidado e pertencimento.

Espero ser uma porta de contato, escuta e conexão — e que juntos, possamos fazer jus à confiança de quem escolhe estar conosco.

Contem comigo como uma porta aberta de contato e diálogo. Que possamos fazer da UNAT-Brasil uma instituição cada vez mais presente, acessível e significativa.

Sejam bem-vindos a este novo ciclo

Ana Laura Pires Rodovalho
Diretora de Comunicação
Gestão 2026-2029

 
E A DIRETORIA GESTÃO 2026-2029 FICOU ASSIM:

Vice-presidência

Ana Paula Saad Rodrigues Psicóloga | CRP 01/5967 Candidata à Vice-Presidência – Gestão 2026–2029 Membro Didata em Formação (MDF) – UNAT-Brasil Psicóloga clínica, psicoterapeuta individual e grupal, supervisora, orientadora profissional e de carreira, palestrante e facilitadora de grupos, com atuação no campo clínico e educacional voltada ao desenvolvimento humano. Sócia e coordenadora da Saad Psicologia Ltda. Graduada em Psicologia em Brasília (1993), com certificação em Análise Transacional na área de psicoterapia pela UNAT-Brasil (1996). Possui formações complementares em Terapia Cognitivo-Comportamental, Avaliação Psicológica, Orientação Profissional e de Carreira, Psicologia do Trauma, Intervenção em Crise e Psicoterapia do Script, entre outros estudos voltados ao desenvolvimento humano. Atua na área clínica com psicoterapia individual e grupal e, no campo educacional, com grupos, workshops, palestras e projetos para adolescentes, adultos e pais, incluindo professores, coordenadores e equipes pedagógicas. Coordena o curso AT-202 – Formação e Treinamento em Análise Transacional (Turma 01 | 2024–2026), em formato presencial, em Brasília (DF), atuando na formação de novos profissionais. Coordenadora do XIII Fórum de Análise Transacional.

Diretoria de Ética

Meu nome é Silvio Roberto Cabral Júnior. Sou Psicólogo Clínico, Supervisor e Professor em Análise Transacional. Sou especialista na abordagem e, atualmente, Membro Didata em Formação na área de Psicoterapia. Coloco-me à disposição para contribuir com o desenvolvimento ético e institucional da associação.

Diretoria Financeira

Sou Edu Cremonese, consultor experiente em desenvolvimento humano e corporativo. Estudioso da psicologia, da Análise Transacional e das relações, somado às formações sólidas e certificações reconhecidas no mercado, lanço mão de ferramentas potentes para o atingimento do resultado esperado. Sou membro AT certificado para área organizacional na União Nacional dos Analistas Transacionais e candidato à reeleição ao cargo de Diretor Financeiro da UNAT BRASIL.

Diretoria Docência e Certificação

Maria Imaculada Gonçalves de Almeida Möllmann (Maku de Almeida). Head de Pesquisa e Desenvolvimento do Instituto Mentoria Integrativa Relacional, CEO do Studio Poiésis – Desenvolvimento & Saber, Mentora Integrativa Relacional educadora e supervisora, Didata em Análise Transacional, certificada para as  áreas organizacional e educacional - (UNAT BRASIL), especialista em Recursos Humanos e Gestão Empreendedora (UFPR), Formação em Dinâmica dos Grupos (SBDG), experiência em educação corporativa, desenvolvimento das competências (técnicas e comportamentais) de gestão e de equipes, formação de educadores internos. Experiência: gestão no mercado financeiro, desenvolvimento humano e organizacional, elaboração e aplicação de jogos comportamentais e de estratégia, consultoria organizacional na área de processo da gestão das pessoas. Pesquisadora do comportamento humano, autora de artigos/livro publicados sobre o tema. Colunista de comportamento no Portal LAB2050 (lab2050.digital/pt). Apresentadora e editora do programa MirCast.

Diretoria Científica

Tânia Elizabeth Caetano Alves. Médica, Membro Didata em Formação pela UNAT-BRASIL na área da Psicoterapia e Membro Certificado na área das Ciências da Saúde. Especialista em Análise Transacional. Co- autora do livro “Das emoções aos sentimentos- Construindo um caminho com coração”. Facilitadora do Jogo da Transformação, credenciada pela INNERLINKS, Inc. Atua como psicoterapeuta e facilitadora de cursos e workshops. Diretora Administrativa da UNAT-BRASIL nas gestões 1998 a 2000 e 2008 a 2011. Membro do Conselho Deliberativo da UNAT-BRASIL no período de 2016 a 2019. Membro da comissão da Diretoria de Ética da UNAT BRASIL na gestão 2020 a 2023; Membro da comissão da Diretoria Científica da UNAT -BRASIL de março de 2025 até o momento. Participante de Comissões Organizadoras de Fóruns e Congressos.

Diretoria Administrativa

Carolina Schmitz da Silva. Head de Administração do Instituto MIR, Mentora Integrativa Relacional Educadora e Supervisora, Didata em Análise Transacional na área Organizacional, certificada também nas áreas educacional e psicoterapia – UNAT Brasil, Psicóloga CRP 08/14963, Especialização em Gestão de Pessoas: Carreiras, Liderança e Coaching (Escola de Negócios, PUCRS), Formação em Change Management. Especialista em desenvolvimento organizacional, gestão administrativa e gestão de orçamentos, com mais de 21 anos de experiência. Pesquisadora do comportamento humano, autora de artigos/livro publicados sobre o tema. Apresentadora do programa MirCast. 

Diretoria de Comunicação

Ana Laura Pires Rodovalho, Psicóloga clínica e Analista Transacional Certificada, com atuação na área de desenvolvimento humano em empresas e grupos. Atualmente integrante da Comissão de Comunicação da UNAT-Brasil contribuindo com estratégias e produção de comunicação para a instituição. Especializanda em Neurociência Afetiva, com formações em Experiência Somática e Trauma.

 

Servidão voluntária e Estados de Ego:
Uma leitura à luz da Análise Transacional

(por MDF Luiz Fernando Candeias, CRP: 05/67750)

Étienne de La Boétie, em Discurso da servidão voluntária, parte de uma questão aparentemente paradoxal: como um único homem, ou um pequeno grupo, consegue exercer poder sobre uma multidão numericamente muito superior? Sua resposta desloca parcialmente a explicação da força daquele que domina para a participação daqueles que se submetem. O poder do tirano não se sustentaria exclusivamente pela coerção, mas também pela obediência, pelo hábito e pela colaboração daqueles sobre os quais esse poder é exercido (LA BOÉTIE, 1982).

A expressão servidão voluntária, contudo, não deve ser compreendida simplesmente como uma escolha consciente pela submissão. O caráter “voluntário” da servidão é mais complexo. La Boétie observa que pessoas nascidas sob determinada ordem aprendem progressivamente a considerá-la natural. Desta forma, aquilo que inicialmente poderia ter sido imposto pela força passa, ao longo do tempo, a ser mantido pelo costume, fazendo com que a obediência deixe de exigir coerção permanente, porque os próprios indivíduos passam a reproduzir as condições que sustentam a autoridade (LA BOÉTIE, 1982).

Em nosso contexto clínico e organizacional na Análise Transacional (AT), podemos estabelecer uma aproximação, entre La Boétie e Eric Berne, muito embora este não tenha descrito a teoria dos Estados de Ego, para explicar o fenômeno político da servidão voluntária, da mesma forma que o filósofo francês também jamais imaginou que o seu conceito poderia ser utilizado na fenomenologia da AT.

No modelo estrutural de Berne, a personalidade pode ser compreendida por meio de três Estados de Ego fundamentais: Pai, Adulto e Criança, sistemas organizados de pensamentos, sentimentos e comportamentos relacionados a experiências específicas do indivíduo (BERNE, 1985).

Posteriormente, o modelo funcional permite observar diferentes modos de manifestação desses Estados de Ego, distinguindo, entre outros, Pai Estruturante (PE), Pai Nutridor (PN), Adulto(A), Criança Adaptada (CA) e Criança Natural (CN) (CORNELL, W.F, et all, 2023).

A Criança Adaptada é particularmente relevante para esta reflexão, e não deve ser confundida com submissão ou passividade. No modelo funcional da AT, a CA corresponde a comportamentos aprendidos e desenvolvidos em resposta às expectativas, regras e pressões do ambiente e pode apresentar formas positivas (OK), quando tais padrões permanecem adequados e funcionais, ou negativas (não-OK), quando padrões aprendidos anteriormente continuam sendo reproduzidos mesmo quando já não são adequados à situação atual.

É sobretudo nessa segunda condição que se torna possível estabelecer uma aproximação com a servidão voluntária: não porque adaptar-se à autoridade seja, em si, uma forma de servidão, mas porque padrões de adaptação podem tornar-se habituais e persistir mesmo quando o indivíduo dispõe, no aqui-e-agora, de outras possibilidades de resposta. Nessa perspectiva, o elemento central não é a obediência em si, mas a redução da capacidade de examinar criticamente as alternativas disponíveis e escolher entre elas a partir da realidade presente (STEWART; JOINES, 1987).

É necessário destacar que a Criança Adaptada não constitui, por si mesma, um funcionamento patológico. A capacidade de adaptação é indispensável à vida social. Respeitar regras de convivência, adequar comportamentos a diferentes ambientes e aceitar limites legítimos podem representar manifestações funcionais da CA. As implicações e disfunções sociais surgem quando a adaptação se torna rígida, automática deixando de ser confrontada com a realidade presente, e restringindo as possibilidades de escolha do indivíduo.

É justamente nesse ponto que a aproximação com a servidão voluntária se torna fecunda. O indivíduo descrito por La Boétie pode habituar-se à submissão a ponto de deixar de questionar a legitimidade da autoridade ou mesmo imaginar outras possibilidades de organização da realidade. Pela lente da AT, poderíamos interpretar esse fenômeno como uma situação na qual padrões adaptativos aprendidos tornam-se tão consolidados que determinadas respostas passam a ocorrer de forma automática.

Expressões isoladas, tais como: “sempre foi assim”, “não adianta questionar”, “é melhor não criar problemas” ou “não há nada que possamos fazer” ilustram essa possibilidade. Elas não demonstram necessariamente, por si mesmas, um Estado de Ego específico, mas podem sinalizar comportamentos compatíveis com uma predominância funcional da Criança Adaptada quando acompanhadas de submissão automática às expectativas de autoridade.

Observamos outras construções importantes ao analisarmos o Estado de Ego Pai. No modelo estrutural da AT, o Pai contém conteúdos incorporados a partir de figuras parentais e outras autoridades significativas. Regras, proibições, permissões, valores e julgamentos podem, portanto, permanecer disponíveis internamente mesmo quando a autoridade que originalmente os transmitiu não está presente (BERNE, 1985).

Os conteúdos parentais introjetados podem ser tratados como verdades indiscutíveis e, funcionalmente, manifestar-se por meio de comportamentos controladores ou críticos; diante deles, comportamentos de Criança Adaptada podem aparecer como submissão ou rebeldia (STEWART; JOINES, 1987).

Essa distinção permite compreender um aspecto sofisticado da servidão voluntária: a autoridade externa pode progressivamente tornar-se desnecessária para produzir determinados comportamentos, uma vez que o indivíduo passa a antecipar aquilo que acredita ser esperado dele e regula o próprio comportamento de acordo com essas expectativas. A coerção externa pode, desse modo, transformar-se parcialmente em autocontrole baseado em normas internalizadas.

Nesse processo, o Estado de Ego Adulto desempenha papel decisivo. O Adulto trabalha com as informações disponíveis no presente, confrontando crenças, expectativas e interpretações com osdados da realidade. Quando conteúdos provenientes do Pai são tomados como informações objetivas do presente, Berne descreve a possibilidade de uma contaminação do Adulto pelo Pai (BERNE, 1985).

Assim, afirmações como “não posso discordar da autoridade” podem deixar de ser examinadas como hipóteses e passam a ser experimentadas como fatos. O fortalecimento do Adulto não significa, entretanto, substituir automaticamente a obediência pela oposição. Essa distinção é fundamental. Uma pessoa pode analisar uma regra, reconhecer sua legitimidade e decidir obedecê-la a partir do Adulto. Da mesma forma, uma reação puramente rebelde pode continuar psicologicamente organizada em função da própria autoridade contra a qual se insurge. A Criança Adaptada Rebelde ainda está, em certo sentido, respondendo à autoridade.

Por isso, a superação da servidão voluntária, quando observada pela perspectiva da AT, aproxima-se mais da recuperação da capacidade de escolha do que da simples desobediência. O indivíduo passa a perguntar: esta norma é legítima? Esta autoridade possui realmente o poder que lhe atribuo? Que alternativas existem? Minha decisão decorre da realidade presenteou da repetição automática de uma adaptação anteriormente aprendida?

Nesse sentido, a reflexão aproxima-se do conceito Berneano de autonomia. Berne associa a autonomia à recuperação de três capacidades fundamentais: consciência, espontaneidade e intimidade (BERNE, 1964). E destaco aqui a espontaneidade como uma opção de liberdade de escolha e expressão de sentimentos coerentes, no sentido de desenvolvimento dos próprios sentimentos e não uma repetição do que aprendeu em convívio social.

A servidão voluntária pode ser compreendida, à luz da Análise Transacional, como uma condição na qual a adaptação às exigências da autoridade se torna progressivamente naturalizada, reduzindo a avaliação crítica da realidade e as alternativas percebidas pelo indivíduo. Conteúdos parentais incorporados podem contribuir para a manutenção desse processo, enquanto a descontaminação do Adulto e a recuperação da Autonomia ampliam a capacidade de reconhecer, avaliar e escolher conscientemente diante da autoridade.

BERNE, Eric. Análise transacional em psicoterapia. São Paulo: Summus,1985.

BERNE, Eric. Games people play: the psychology of human relationships. New York: Grove Press, 1964.

CORNELL, William F.; DE GRAAF, Anne; NEWTON, Trudi; THUNNISSEN, Moniek (org.). Dentro da AT: um manual completo de Análise Transacional. Porto Alegre: Autonomia, 2023.

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. Tradução de Laymert Garcia dos Santos. São Paulo: Brasiliense, 1982.

STEWART, Ian; JOINES, Vann. TA today: a new introduction to transactional analysis. Nottingham: Lifespace Publishing, 1987.

 

Luiz Fernando Candeias é Psicólogo Clínico (CRP-05/67750) no Instituto Pharos, no Rio de Janeiro, com trajetória também nas áreas de gestão e engenharia.

É Mestre em Engenharia de Produção pelo Naval Group (França) e MBA em Gerenciamento de Projetos pela COPPEAD-UFRJ.

Na área clínica, tem formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Orientação de Carreiras, além de especialização em Neurociências da Produtividade pela PUC-PR.

Atualmente, aprofunda sua atuação em Análise Transacional, seguindo a formação como Membro Didata pela UNAT-Brasil.

 

Entre encontros e pertencimentos: minha experiência no XIII Fórum de Análise Transacional

Quando penso no XIII Fórum de Análise Transacional, realizado em Brasília, percebo que ainda é difícil colocá-lo em palavras. O Fórum terminou, voltei para casa e retomei a rotina, mas alguma coisa continuou acontecendo dentro de mim. Alguns encontros não terminam quando a programação acaba, continuam reverberando naquilo que pensamos, sentimos e na forma como olhamos para nós mesmos e para o outro.

Este foi o meu primeiro Fórum de Análise Transacional e cheguei carregando uma mistura de expectativas, curiosidade e, talvez, um pouco de receio diante de algo que ainda era novo para mim. Cheguei de uma maneira mais intimista, observando, conhecendo os espaços e as pessoas. E foi justamente nesse lugar de quem ainda estava chegando que vivi uma das experiências mais importantes: fui acolhido.

Aos poucos, percebi que não precisava ocupar um personagem para pertencer. Pude estar ali como psicólogo, profissional em formação e estudante, mas também simplesmente como Bruno. Pude conversar, rir, compartilhar experiências, fazer perguntas, ouvir histórias e conhecer pessoas para além de suas funções e títulos.

Isso me fez pensar em algo muito próprio da Análise Transacional: o encontro com o outro pode criar condições para que possamos nos apresentar de maneira mais autêntica. E foi assim que me senti durante o Fórum. Em diferentes momentos, pude sair do lugar de quem apenas observa e me permitir participar, trocar e construir junto.

As palestras, grupos e discussões foram fundamentais para minha formação. Mas percebi que o aprendizado não estava apenas nas atividades formais. Ele também estava nos arredores, nos cafés, nas confraternizações e nas conversas espontâneas. Estava nas pessoas contando suas trajetórias, compartilhando experiências e falando sobre aquilo que as fez permanecer e continuar acreditando na Análise Transacional.

Essa foi uma das grandes riquezas do Fórum para mim: perceber que a AT não existe apenas nos livros, nas teorias ou nos consultórios. Ela também ganha vida nas relações que construímos e na maneira como nos encontramos uns com os outros.

Ao longo da minha formação, venho construindo minha relação com a Análise Transacional de maneira gradual, buscando estudar, fazer cursos, receber orientação e supervisão e encontrar uma forma de fazer clínica que tenha sentido para mim. Estar no Fórum e conhecer tantas pessoas envolvidas com a AT trouxe algumas confirmações importantes sobre esse caminho.

Uma delas foi perceber que estou construindo um lugar dentro dessa comunidade. Não como alguém que chegou a um ponto final, mas justamente como alguém que reconhece que ainda há muito a aprender. O Fórum me fez olhar para minha trajetória e pensar: é por aqui.

E talvez a confirmação mais significativa tenha sido perceber que não estou construindo esse caminho sozinho. Por trás de uma abordagem existem pessoas. Pessoas que estudam, ensinam, questionam, compartilham, acolhem e continuam construindo conhecimento. Cada pessoa que encontrei contribuiu, de alguma forma, para que aquela experiência fosse possível. Algumas por meio de uma fala em uma atividade, outras, por uma conversa rápida, uma amizade que começou ali ou simplesmente por um gesto de acolhimento. Por isso, quando penso no XIII Fórum, não consigo separá-lo apenas dos conteúdos que aprendi. Penso também nas relações que construí e nas experiências que vivi.

Agradeço profundamente a todas as pessoas envolvidas na organização e preparação do Fórum, aos grupos, às pessoas que conduziram as atividades e a todos que ajudaram a construir os momentos de convivência e confraternização. Muitas vezes, o que torna um encontro significativo está justamente na soma desses pequenos encontros.

Voltei para casa com novos aprendizados, novas perguntas e, principalmente, com a sensação de que algo havia se movimentado em mim. Meu primeiro Fórum de Análise Transacional foi, portanto, muito mais do que a participação em um evento. Foi uma experiência de encontro, pertencimento, aprendizado e confirmação de caminho. E t alvez seja justamente por isso que, mesmo depois de ter terminado, ele ainda esteja tão vivo em mim.

Sigo com gratidão pelas pessoas que encontrei, pelas trocas que vivi e por tudo aquilo que ainda ficou para ser pensado. E sigo também com ainda mais vontade de continuar aprendendo, construindo e participando dessa comunidade que me acolheu tão bem.

Que venham os próximos encontros, os próximos aprendizados e o Congresso em Uberlândia.

Levo comigo uma lembrança que resume muito do que vivi: a Análise Transacional também acontece quando pessoas se encontram e, nesse encontro, tornam possível alguma transformação.

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Mini currículo: Bruno Igor Sousa Arruda é psicólogo clínico (CRP-04/75535), graduado em Psicologia pela Universidade de Uberaba (UNIUBE) e pós-graduado em Psicologia Sexual e Terapia de Casais e Família. Atualmente, realiza pós-graduação em Análise Transacional e possui formação complementar na abordagem e é associado à UNAT-BRASIL. Atua na clínica com jovens adultos, adultos e casais, nas modalidades presencial e on-line.

 

Entrevista com Roberto Crema

Palestrante do XIII Fórum Brasileiro de Análise Transacional

1. A experiência no Fórum

Para começar, como foi para você estar conosco neste Fórum de Análise Transacional? Gostaríamos que compartilhasse um pouco da sua experiência com o grupo e o que esse encontro significou para você.

RC: Inicialmente, agradeço à Ana Paula Saad pelo gentil convite para participar deste especial evento. Para mim, foi uma alegria reencontrar antigas amizades da comunidade de AT, em um clima presencial de lúcida fraternidade celebrativa. Foi também um mergulho nas minhas próprias raízes nesta abordagem, na qual me tornei um dos primeiros didatas do Brasil, nos idos da década de 70. Uma degustação do passado com o sabor do mais atual e contemporâneo.

2. A Análise Transacional no século XXI

O workshop que você conduziu no Pré-Fórum trouxe uma reflexão sobre a Análise Transacional no século XXI, a partir de uma visão integrativa. Para quem não participou, como você apresentaria essa perspectiva em poucas palavras?

RC: Neste evento preliminar ao Fórum, com um público muito representativo, atento e motivado, revisitei um livro de minha autoria, publicado no início da década de 80, Análise Transacional Centrada na Pessoa... e mais além. Trata-se de uma abordagem renovadora da AT, holística e ampliativa, sustentada em uma perspectiva fenomenológica que integra o tema da resistência na perspectiva da Gestalt-terapia e a visão centrada na pessoa de Carl Rogers, com abertura para o transpessoal e uma robusta casuística. Este enfoque convive com as escolas clássicas da permissão de Berne, da redecisão dos Goulding e da reparentalização de Schiff.

3. Para além da atuação analítica

Em determinado momento da sua exposição, você nos convidou a ampliar nosso olhar sobre a Análise Transacional, para além da atuação analítica. O que você gostaria que as pessoas levassem dessa reflexão para a vida?

RC: Há cerca de 40 anos, eu me dei conta das limitações e do reducionismo de uma visão exclusivamente analítica. Como sabemos, analisar é um método que consiste em fragmentar o todo em suas partes, com a pretensão de compreender o global pelo parcial, ou seja, um caminho de decomposição sistemática com pretensão explicativa.

Nesta época, foi em um encontro terapêutico que, à moda de um satori ou intenso insight, diante da pessoa à minha frente, dei-me conta, subitamente, de que ela tinha me buscado por sofrer e sofria por sentir-se fragmentada na sua alma, na sua mente, nos comportamentos, nas relações e na própria existência – e que eu tinha aprendido com meus professores apenas a dissociar e desvincular ainda mais: P-A-C, complexos, traumas e demais miudezas. Compreendi, finalmente, que, após uma análise bem-sucedida, lá estaria uma pessoa infeliz, fragmentada bem organizadamente...

O impacto decisivo desta percepção repentina me levou a mergulhar no método sintético, a partir de seu primeiro desbravador, Wilhelm Dilthey, que bradava que a natureza se explica, e a alma se compreende. Seguiu-se uma sistemática pesquisa sobre a interpretação sintética dos sonhos em Jung, a psicossíntese de Assagioli, a logoterapia de Frankl, a perspectiva visionária de Moreno e a terapia iniciática de Graf-Dürckheim, entre outros. Travei contato pessoal com Ramon Soler, que postulava uma antropologia e uma universidade da síntese, até embriagar-me com a obra impecável de Krishnamurti, que considero um monumento radical da visão sintética.

Esta pesquisa me transmutou, ao lado do analista que sigo sendo – talvez mais competente do que antes, pois apenas compreendemos de verdade aquilo que transcendemos –, em um sintetista, uma palavra que precisei inventar para referir-me ao agente do caminho sintético. Nesta época, publiquei um artigo sobre a Síntese Transacional em uma revista oficial da UNAT, apresentando-a como um enfoque que não antagoniza, senão complementa o da Análise Transacional.

Mais tarde, com Pierre Weil, edificamos a Universidade Holística da Paz – UNIPAZ –, sustentada em uma abordagem transdisciplinar holística, que integra o todo e suas partes, postula a dialogicidade entre ciência e consciência e implica a sinergia permanente e paradoxal entre os processos analítico e sintético. Particularmente, este último se refere a um tema essencial que tenho desenvolvido e amplificado em todos os meus livros posteriores sobre o cuidado integral, como Introdução à Visão Holística, Saúde e Plenitude, Antigos e Novos Terapeutas, Pedagogia Iniciática, Normose – a patologia da normalidade, Mensagens do Deserto, O Poder do Encontro e, o mais recente, Mitos e Ritos: Trilhas da Plenitude.

4. As relações e a busca pela Inteireza

Você falou bastante sobre a maneira como nos relacionamos conosco e com o outro e sobre a busca pela Inteireza. O que nos afasta dessa Inteireza e o que pode nos ajudar a cultivá-la em nossas relações?

RC: A crise que assola a humanidade é dominantemente de fragmentação, dissociação e desvinculação. No século XVII, houve a emergência do racionalismo científico, de natureza eminentemente analítica, que modelou a modernidade com a invenção da disciplina e da especialização. Disso resultou um tipo de alienação de quem se orgulha por sua unilateralidade de visão e de ação, que pode ser metaforizada pela viseira que se coloca em um cavalo para fazê-lo carregar a sua carroça, não se sabe de onde nem para onde. Buckminster Fuller afirmava que a especialização torna todos dependentes de todos, constituindo uma forma ornamental de escravidão.

Não se trata de visar a um retorno regressivo ao gênio enciclopédico do século XVIII, ou seja, substituir saber quase tudo de quase nada por saber quase nada de quase tudo. As funções do especialista e do generalista já foram assumidas pela ditadura dos algoritmos deste fenômeno crescente e inevitável denominado inteligência artificial. O que caracteriza uma imprescindível inteligência integral é a aliança entre a análise e a síntese, entre a razão e o coração, entre a sensação e a intuição, entre a metáfora do hemisfério esquerdo e a do direito, que nos leva à simbólica integrativa do corpo caloso. Como afirmava Carl Sagan, o futuro da humanidade depende do corpo caloso.

Assim, o grande desafio de nosso momento histórico é, minimamente, a conquista de uma consciência da inteireza, pois tudo que é inteiro é belo, é saudável, é pacífico e é sagrado. Eis o que a UNIPAZ busca desenvolver e disseminar, no Brasil e no exterior, nas últimas quatro décadas, sobretudo através de uma educação e de uma terapia integrais. Penso que esta é a principal virtude que caracteriza a nova liderança no século XXI.

5. A Inteireza na prática profissional

Quando pensamos no trabalho do terapeuta e dos demais profissionais de ajuda, como essa busca pela Inteireza se apresenta? Que importância tem o nosso próprio processo de desenvolvimento na relação com aqueles que acompanhamos?

RC: A palavra terapeuta é muito antiga, originada na Antiguidade grega pela tradição do Templo de Asclépio, onde o médico era também um sacerdote, e o hospital, também um templo. No campo judaico-cristão, remete à escola dos Terapeutas de Alexandria, divulgada pelo grande hermeneuta Fílon, há dois milênios, referindo-se a uma tradição hebraica de filósofos que eram também médicos, psicólogos, educadores e jardineiros do potencial humano, com uma prática fundamentada em um suposto cuidar, através da escuta, da interpretação e da ética da bênção, de bem olhar e de bem dizer. Duas relíquias da matriz de nossa civilização ocidental que precisamos resgatar, atualizando-as à luz da ciência contemporânea.

O terapeuta é um acompanhante de processo, que não pode pretender iluminar para o outro aquilo que, dentro dele, ainda é escuridão. Uma inteireza psicossomática, socioambiental e espiritual, conquistada pelo próprio terapeuta em sua trilha de individuação, é o seu mais importante e essencial instrumento de facilitação da cura e da evolução.

6. Uma provocação para continuar pensando

Durante o workshop, você trouxe algumas provocações que nos convidaram a sair do nosso lugar habitual de pensar. Qual delas você gostaria de retomar e deixar para quem está lendo esta entrevista?

RC: O ser humano integral será a maior descoberta do século XXI. Caso contrário, haverá século XXI para o ser humano?

7. Uma pergunta para cada pessoa levar consigo após este encontro: qual seria?

RC: Qual o desejo mais profundo e permanente que me convocou à encarnação? Quem sou eu? Qual o sentido de minha existência? Em outras palavras, para que e para quem eu existo?

 
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