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A Nicotina é um alcaloide presente nas folhas da planta do fumo (Nicotiana tabacum) da família das Solanáceas. Depois de “curadas” e processadas, tais folhas são usadas para a fabricação dos vários tipos de cigarros, cigarretes, charutos, rapé e o tabaco para cachimbos e vapes – mais recentemente – os denominados cigarros eletrônicos. O vício, ou dependência, é determinado pela Nicotina inalada, logo depois de ser tragada, chega rapidamente ao cérebro, em cerca de 6,5 a 11 segundos. No córtex cerebral, este princípio ativo se liga aos aceptores colinérgicos e libera neurotransmissores: dopamina, serotonina e noradrenalina. Essa tríade produz de modo instantâneo uma sensação prazerosa, e elogiada pelos adictos como capazes de aumentar-lhes a atenção e aliviar a ansiedade. Daí advém efeitos mágicos que podem produzir uma associação falaciosa de um registro cerebral do binômio: fumar cigarro equivale a obter soluções rápidas de problemas.
O uso abusivo e continuado leva o cérebro do usuário à neuro adaptação. Sabe-se de há muito tempo, que nas fibras pré-ganglionares do Sistema Nervoso Autônomo produz uma Nicotina endógena que, com o tabagismo reduz seus próprios receptores, e que passam a exigir mais Nicotina exógena, e só fabrica o mínimo para manter o funcionamento basal. A partir desse conhecimento, fica fácil de entender o efeito de rebote consequente à retirada súbita da Nicotina exógena. Este fenômeno, tal como se dá pela retirada de medicações psicoativas da psiquiatria, provoca a conhecida Síndrome de Abstinência, cujos sintomas são: insônia, fome exagerada, irritabilidade, bradicardia, extrassístoles, desconcentração fácil e fissura intensa. No mais das vezes, ocorre um pico entre 1 dia e 3,5 dias, o qual pode durar algumas semanas!
Entre os efeitos colaterais indesejáveis que afetam o corpo humano, se destacam os riscos de: câncer das vias respiratórias, 35 vezes mais probabilidade de afetar o pulmão, enfisema pulmonar, infarto de miocárdio, disfunção erétil, AVC, câncer das vias urinárias, prejuízo na cicatrização de feridas, o envelhecimento precoce etc.
COMO O FUMO AFETA A MENTE: ASPECTOS PSICOLÓGICOS E DA AT
Da nossa experiência clínica, ao lidar com tabagistas percebemos como o cigarro e outras fontes de Nicotina, funcionam como uma verdadeira “muleta emocional”.
Por vezes funciona principalmente como ritual de passagem da turma de adolescentes: “agora eu sou do grupo dos fumantes”. Ao fazer isto, a pessoa está Estruturando o Tempo Social – como Berne ensinou – e saciando as “Fomes” de Estímulo, de Reconhecimento e de pertencimento. No trabalho ou em encontros, rotulando como: “o momento do meu cigarrinho”, “a minha pausa para o cafezinho (+ cigarrinho)”.
PRINCIPAIS FUNÇÕES PSICOLÓGICAS DO FUMO
Regulação emocional: pode reduzir ansiedade no início, mas, no final, termina é aumentando a ansiedade basal e a angústia.
Pseudo autocontrole: ao afirmar que só está tirando umas baforadas para matar o tempo, “eu paro a hora que eu quiser”: é uma Desqualificação típica e ilusória. Em termos de Estados do Ego, a Criança Adaptada mantém a conduta na ilusão de que será tarefa fácil.
Elementos do Script: Muitos tabagistas têm Injunções, como “Não vivas”; “Não seja sadio”; ou “Não sintas”. O tabagismo anestesia e confirma o Script, “Meu avô fumou e viveu até os 90. Eu vou morrer fumando, também”.
Jogos Psicológicos: “Sim, mas...” – “Sim, faz mal, mas só fumo pouco”.
No Triângulo Dramático, pode fazer Jogos da posição de Salvador (“quem da turma quer um cigarrinho?”), Perseguidor (“se eu pegar você fumando novamente, vou fazer você engolir o cigarro aceso”) e de Vítima (“...e aí, alguém tem um cigarrinho pra me dar?”).
SAÍDAS DA DEPENDÊNCIA: TRATAMENTO E ESTRATÉGIAS
Não funciona querer abandonar a dependência, apenas na base da “força de vontade”. Para abandonar o tabagismo requer uma terapia de grupo, tipo Fumantes Anônimos, um grupo só de fumantes em que os participantes seguem a Dinâmica Grupal com AT, com ênfase no desejo autêntico de abandonar a adição à Nicotina, adesão voluntária ao Contrato Grupal, e a firme condução de um Terapeuta capaz de praticar os 3 “(P)s” – Permissão, Proteção e Potência – e integrativo do binômio: mente sã em corpo sadio.
Fundamental e eficaz mesmo é a aplicação com habilidade das 8 operações de Berne, além de dominar técnicas de altas Confrontações, como faz o Didata Jussimar de Almeida, e manejo do Miniscript de Kahler (tipo o que o Didata Jorge Close brindou este ano os associados da UNAT BRASIL). Tudo isso sem perder de vista a aplicação prática das leis da Abundância de Caricias de Steiner e da exploração dos Impasses e da abordagem da Técnica da Redecisão dos Gouldings.
ADJUVANTES IMPORTANTES AO TRATAMENTO DO TABAGISMO
Reposição de nicotina: Adesivos, gomas de mascar e pastilhas podem reduzir a fissura em cerca de 50 a 70%, além de evitarem os terríveis picos de abstinência. Simultaneamente, substâncias do arsenal psiquiátrico podem oferecer uma considerável e importante ajuda no resultado do tratamento. Exemplos: Bupropiona e Vareniclina: Medicamentos de primeira linha. Atuam nos receptores nicotínicos e na dopamina. Révia ou o Contrave (associação da Naltrexona + Bupropiona) pode ser essencial na superação da fissura
Preparo do Dia D: Marcar data, reduzir estímulos, tirar cinzeiros e isqueiros de casa, e ter uma rede de apoio para servir de reforço à nova decisão.
AT e Redecisão: Que Permissão sua Criança precisa? “Você pode sentir e resolver sem cigarro”. Identificar gatilhos. Situação, pensamento, emoção, comportamento. Criar respostas alternativas.
Regulação emocional: Treinar técnicas de respiração, mindfulness e tolerância ao mal-estar. A fissura dura 3 a 5 minutos. Se não alimentar, ela passa.
Autocontrole real: Trocar o Pai Crítico por um Pai Nutridor. Em vez de “Você é fraco”, usar “Hoje foi difícil, mas você está no caminho da solução. Avante”.
Prevenção de recaída dos 4 gatilhos principais: HALT – (Hunger = fome, Angry = raiva, Lonely = solitário, Tired = cansado). São dificultadores da cessação.

CONCLUSÃO
O fumo é uma dependência biopsicossocial. A nicotina produz o sequestro cerebral. Sair exige mais que autocontrole. Exige nova regulação emocional, permissão para sentir e contratos claros de mudança. Como psiquiatra, o papel é tratar a abstinência física e, como psicoterapeuta, ajudar o paciente na Redecisão: “Eu posso viver, sentir e pertencer sem fumar”.
A boa notícia: 1 ano sem fumar já reduz o risco cardíaco pela metade. O cérebro é plástico. A Criança Livre agradece.
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