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QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA?
Você sabe o que é Trauma Vicário? Terapeuta, leia com atenção: Janeiro branco também é um alerta para os “cuidadores”
Um novo ano se inicia com uma campanha cara principalmente para nós: Janeiro Branco, e nos faz um convite coletivo para falarmos sobre saúde mental. Para nós, psicólogos, psicólogas, psicoterapeutas e cuidadores, esse convite ganha uma camada ainda mais delicada: a necessidade de olharmos para quem cuida. Saímos recentemente de um período marcado por festas, encerramentos e, para muitos, algum nível de pausa e descanso. E o mês de janeiro, por sua vez, costuma trazer a sensação de recomeço acelerado, agendas cheias e o desejo de “voltar com tudo”. Talvez o maior desafio seja justamente não voltar no automático, mas retornar com consciência.
Nossa profissão tem como um de seus pilares fundamentais a empatia. A neurociência já nos mostra que os circuitos envolvidos na empatia estão intimamente conectados às áreas cerebrais de autorreferência, isso significa que, ao nos colocarmos repetidamente em contato profundo com a experiência emocional do outro, nosso cérebro pode não fazer uma separação tão nítida entre “o que é meu” e “o que é do cliente”, especialmente quando estamos cansados, sobrecarregados ou com poucos recursos de regulação emocional disponíveis.
É nesse contexto que o trauma vicário se torna um fenômeno relevante e, mais do que isso, comum em nossa prática clínica. O trauma vicário não surge por fragilidade ou falta de preparo, mas como consequência direta do exercício contínuo de escuta empática. Ao ouvir histórias de sofrimento, violência, abandono, perdas e dor psíquica, e ao acompanhar de perto processos profundamente difíceis, nosso próprio sistema nervoso pode começar a responder como se estivesse vivendo aquelas experiências. Aos poucos, sem que percebamos, partes do sofrimento do outro passam a habitar em nós.
A Análise Transacional nos ajuda a compreender mais ainda sobre esse processo a partir do lugar do Salvador. Esse papel, embora adoecido, costuma nascer da empatia profunda, da sensibilidade ao sofrimento e do desejo sincero de cuidar — qualidades que atravessam o fazer clínico e sustentam o importante vínculo terapêutico. Porém, quando o cansaço se acumula e o autocuidado vai ficando em segundo plano, pode acontecer, quase sem que se perceba, um deslocamento: o terapeuta passa a sustentar mais do que é possível, oferecendo com o próprio corpo e com o próprio afeto aquilo que já começa a faltar. E o risco disso? Aos poucos, nesse movimento silencioso, as energias se esgotam, os limites se tornam mais porosos e o risco é reforçar o triângulo dramático, deslizando para o lugar de Vítima — exaustos, ressentidos e emocionalmente drenados sem conseguir cuidar de si mesmos.
O descanso, então, deixa de ser apenas uma pausa física e passa a ser um recurso psíquico essencial. Descansar é criar espaço interno para separar o que é nosso do que pertence ao outro. É permitir que o corpo e o sistema nervoso retornem a um estado de maior segurança e regulação. É também recuperar a capacidade de enxergar a potência do cliente, sua força e sua Autonomia, saindo do lugar de Salvador para que ele possa ocupar o papel de protagonista de sua própria história. Nesse movimento, nós também retomamos o protagonismo da nossa vida e da nossa saúde emocional.
Cuidar de si não nos afasta da clínica — nos aproxima de uma escuta mais ética, compassiva e sustentável. Estratégias de regulação emocional, como o descanso, o lazer, o prazer, o silêncio e a conexão consciente, não diminuem nossa empatia; elas a tornam mais segura. Quando nosso sistema está regulado, conseguimos ouvir com compaixão sem nos fundirmos com a dor do outro, evitando que o trauma vicário se instale de forma silenciosa e cumulativa.
Que o Janeiro Branco possa ser mais do que um lembrete pontual. Que seja um marco de compromisso contínuo com o autocuidado ao longo do ano. Um cuidado que não se limita ao início de 2026, mas que se sustenta mês após mês, para que, ao final do ano, não estejamos novamente falando de exaustão como algo inevitável, mas de presença, vitalidade e escolha consciente.
Como nos lembra Carl Gustav Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Talvez esse toque só seja possível quando aprendemos, primeiro, a cuidar da nossa própria alma — com respeito aos limites, às pausas e ao ritmo que a vida e a clínica exigem.
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