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Você reconhece esses termos? É nesse universo no qual os adolescentes estruturam grande parte do seu tempo. É organizado por linguagens, códigos e comportamentos que, muitas vezes, passam despercebidos pelos adultos, e são marcadores de pertencimento, formas de comunicação e referências identitárias que organizam vínculos, hierarquias e modos de estar no mundo digital.
Pesquisas indicam que muitos adolescentes passam mais de dez horas por dia conectados em múltiplos ambientes digitais, como redes sociais, mensagens, vídeos, conteúdos escolares, músicas ou jogos. Nesses espaços, lazer, estudo, socialização e intimidade se misturam, sem fronteiras claras de tempo, função ou privacidade.
Essa hiperconectividade se refere à exposição contínua a estímulos, comparações e demandas de respostas cada vez mais imediatas, em um ambiente marcado por trocas rápidas, atualizações constantes e mudanças aceleradas de temas, imagens e interações. O mundo digital é veloz: mensagens e conteúdos se renovam em segundos e tendências surgem e desaparecem rapidamente. A sensação é de que é preciso reagir o tempo todo para não perder visibilidade ou pertencimento – o que me leva a refletir sobre as variáveis que podem interferir e ajudar a explicar o aumento significativo de sintomas ligados à depressão, ansiedade, TDAH, isolamento e dificuldades no desenvolvimento de habilidades sociais.
As Carícias Digitais
A possibilidade constante de produzir e compartilhar imagens, especialmente por meio da selfie, introduz uma mudança significativa na forma como o adolescente se apresenta e se expõe ao mundo. A imagem funciona como meio de contato, expressão e posicionamento identitário.
Ser visto, comentado, curtido ou compartilhado torna-se, muitas vezes, um critério central de validação e pertencimento. Nesse contexto, essas reações passam a operar como Carícias Digitais, oferecendo sinais rápidos de aceitação ou desaprovação. Cunhei esse termo em 2025 para designar as formas contemporâneas de reconhecimento mediadas por tecnologias digitais, compreendidas à luz do conceito de Carícias da Análise Transacional.
O like costuma ser vivido como reconhecimento - um sinal de “eu existo”, “eu sou importante”. Já o dislike, ou mesmo a ausência de resposta, pode ser interpretado como rejeição, desvalor e exclusão, sobretudo quando o adolescente ainda não tem recursos internos suficientes para diferenciar a avaliação de um conteúdo da avaliação de si mesmo.
O jovem continua se fechando no quarto, mas o que antes era percebido como espaço protegido tornou-se um ambiente aberto ao mundo digital. Novas pessoas, discursos (muitas vezes de ódio, manipulativos ou violentos) e diferentes riscos passam a fazer parte do cotidiano do adolescente. Pais e responsáveis, em geral, não conhecem quem são esses estranhos que, em poucas horas, tornam-se íntimos de seus filhos.
Nesse contexto, ampliam-se comportamentos de risco mediados pelo digital, como exposição excessiva, aliciamento, violência virtual, dependência de jogos e apostas, além do aumento de ansiedade e sofrimento emocional. Em situações ainda mais graves, há casos de abuso sexual, incentivo a desafios que podem levar à morte e a normalização de práticas de automutilação ou ideação suicida.
A presença adulta
Portanto, faz parte da segurança digital compreender onde o adolescente está, com quem se relaciona, como se expõe, que tipo de reconhecimento busca e de que forma constrói pertencimento nesses ambientes digitais. Trata-se de olhar para a vida online como parte inseparável do desenvolvimento emocional, relacional e social, exigindo presença adulta interessada, diálogo, escuta e construção conjunta de critérios de cuidado e proteção.
A aproximação dos profissionais da saúde, educadores, pais e familiares desse universo é necessária para conhecer seus códigos, compreender suas dinâmicas, orientar escolhas, sustentar limites e oferecer proteção real aos adolescentes.
Mesmo quando os adolescentes rejeitam esse zelo, eles desejam e precisam dessa proteção - mesmo quando não é verbalizado. A presença adulta, aliada a um ambiente relacional seguro e amoroso, com abertura para o diálogo, continua sendo o principal fator de proteção para adolescentes.
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